quinta-feira, 21 de abril de 2011

Lan houses, cyber cafés e comunidades

Segundo pesquisa realizada pelo Comitê Gestor da Internet em 2005, 17,59% dos acessos à internet no Brasil eram feitos através dos centros públicos de acesso pago (lan houses), o que já demonstrava a importância dessa forma de acesso à rede. Em 2007, outra pesquisa foi realizada e a importância das lan houses como fator de inclusão digital ganhou ainda mais relevância. Nada menos que 49% de todo acesso à internet no Brasil é feito dentro de lan houses, sendo que, quanto mais jovem e pobre, esse índice aumenta ainda mais. Na região Nordeste esse índice chega a incríveis 67% e na região Norte 68%. Em famílias com renda até R$ 380 o índice chega a 78%.

O local é simples e apertado, mas isso parece não incomodar as crianças que por ali se amontoam para conversar no MSN, jogar on line, atualizar suas páginas pessoais, postar suas fotos no Flogão, fazer algum trabalho escolar ou simplesmente socializar com os outros jovens que ali freqüentam.

Nesse ambiente simples e informal, vem ocorrendo o maior fenômeno de inclusão digital no Brasil, as lan houses (de "Local Area Network").

Meu primeiro contato com as lan houses foi o mesmo que a maioria das pessoas de classe média, em alguma lojinha bacana em Ipanema nos idos 2001. Aqui em Ipanema as lan houses são chamadas de Cyber Café e não têm tantas crianças nas máquinas.

Inicialmente uma distinção entre lan houses e cyber cafés fazia bastante sentido, pois na primeira a principal atividade eram os jogos, enquanto na segunda os e-mails e sites.

Tal diferenciação faz sentido principalmente no que tange ao licenciamento junto à Prefeitura, uma vez que um alvará para estabelecimento com jogos é muito mais complicado de se conseguir. Hoje em dia pode-se dizer que esse é o maior problema na legalização de lan houses, a classificação dada pela prefeitura para enquadrar as atividades que vão constar no alvará de funcionamento não contempla de forma clara as Lan Houses, fazendo com que mesmo as lan houses nas áreas mais nobres também encontrem grande dificuldade para obter o alvará adequado para a atividade praticada. Hoje temos lan houses com alvarás de curso de informática, loja de suco, venda de equipamento etc.

Hoje tal distinção parece ter perdido o sentido uma vez que todas as atividades são praticadas nos dois lugares, mas principalmente porque os jogos vêm perdendo seu espaço para o uso do Orkut, MSN e outros sites.

Anos e anos utilizando os serviços dos "cybers cafés" quando finalmente em 2005 estava com um amigo na Rocinha e notei um crescimento absurdo no número de lan houses naquela localidade. Não havia mais uma ou duas, e sim dezenas! Com capacidade de lotação quase esgotada em sua grande maioria, notei pela primeira vez como esse tipo de negócio era revolucionário, não só no sentido do negócio para o empreendedor, mas como um fator de inclusão digital absurdo, o que me motivou tentar compreender melhor o que estava acontecendo ali.

Em 2007, juntamente com o projeto "Jovens Urbanos" do Itaú Cultural, visitei as comunidades de Manguinhos, Jacarezinho, Antares e Vila Paciência com o intuito de verificar se esse fenômeno tinha o alcance que pensávamos que tinha. Essas comunidades carentes se localizam nas Zonas Norte e Oeste do Rio de Janeiro, com baixíssimos índices de desenvolvimento. Ao chegar à primeira comunidade, uma ótima surpresa, Manguinhos está repleta de Lan Houses, algo entre 40 e 60 funcionando a pleno vapor, com diversas crianças e jovens passando suas tardes conectados a internet.

Segunda parada, Jacarezinho, outra comunidade carente dominada pelo tráfico, e a mesma constatação! Cerca de 40 Lan Houses distribuídas pela comunidade com excelente procura pelos jovens.

Depois da Zona Norte, rumamos para a Zona Oeste onde visitamos a favela de Antares, também conhecida pelos altos índices de violência ali existente. Descobrimos que apesar do alto grau de pobreza da região e das precárias condições de vida, existiam sete lan houses. E o mais incrível, esse fenômeno surgiu naquela região em função da curiosidade e empreendedorismo de um morador, o Andersom, mais conhecido como Dando (ver entrevista com o Dando para a Carta Maior) que por curiosidade e interesses próprios conseguiu comprar alguns computadores a crédito em uma rede de supermercados e a partir daí se tornou dono de uma lan house e consultor técnico das outras seis lan houses ali existentes.

Finalmente fomos para Vila Paciência, comunidade bastante carente próxima de Antares, e lá finalmente conhecemos uma comunidade sem lan houses. Ao indagar as crianças e jovens da comunidade sobre como eles faziam sem lan house por perto, e eles responderam em coro: "Tem a Ponte Quebrada a 1 km daqui, todos os dias praticamente vamos para a lan que existe por lá". Ou seja, mesmo nos raríssimos casos onde não há uma lan house na própria comunidade, os jovens buscam acesso a uma na comunidade vizinha.

Depois de pesquisar essas quatro comunidades chegamos a algumas conclusões principais:

i. As lan houses são hoje o maior fator de inclusão digital no Brasil, principalmente entre os mais jovens e as classes mais pobres;

ii. São fruto do empreendedorismo das pessoas da própria comunidade;

iii. Em sua grande maioria funcionam na informalidade;

iv. Dão lucro para os empresários em função de uma enorme demanda dos jovens e crianças da comunidade, e dos baixos custos de implementação e manutenção desse negócio uma vez que de um modo geral, funcionam na informalidade;

v. Que existe uma enorme demanda para cursos dentro dessas lan houses (os pais dos jovens em todas as localidades me perguntaram se não seria possível oferecer cursos nas lan houses, justamente por ser um lugar onde o jovem já freqüenta e que poderia haver uma barganha entre os pais e filhos no sentido de que eles pagam pelo lazer dos filhos na lan house desde que eles freqüentem os cursos ali oferecidos);

vi. Todos os donos de lan house com os quais conversei ficaram empolgados com a possibilidade de desenvolverem parcerias para oferecer cursos dentro das suas lan houses.

Diante das conclusões acima descritas, o que nos resta agora é pensar: Como podemos intervir nas lan houses sem atrapalhar o fenômeno criado pelas próprias comunidades?

Como trazer essas lan houses para a formalidade para em seguida desenvolver parcerias como empresas privadas e órgãos do governo com o objetivo de se oferecer cursos nas próprias lan houses?

Visando esse objetivo, o primeiro passo é criarmos um modelo de formalidade específico para esse tipo de negócio. Não adianta tentarmos implementar um modelo de formalidade tradicional pois os custos e burocracia envolvidos inviabilizariam a própria existência dessas lan houses. Diante dessa realidade, estamos pensando em um modelo de formalidade simplificado e barato para os empreendimentos nas comunidades. Percebe-se ainda uma sinalização de todas as esferas do governo no sentido de desburocratizar e baratear o processo de formalização nas favelas.

O governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral já fala na criação de "zonas francas" nas favelas, o município do Rio de Janeiro já dispõe de um decreto que torna a concessão do alvará de licenciamento gratuito para negócios em favela (decreto n°25.536/2005), o SEBRAE coloca a disposição uma página para auxiliares especificamente empreendedores com negócios em favela. Enfim, o momento político é bastante interessante para desenvolvermos um trabalho de formalização das lan houses, dentro de um novo modelo que está sendo construído nesse momento, com o intuito de se criar uma opção de legalização e formalidade para os empreendedores que desenvolvem a economia em localidades mais pobres.http://www.overmundo.com.br/overblog/lan-houses-cyber-cafes-e-comunidades

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